Crônica de uma aprendiz: o irmão que ensinou a ler o mundo
Rosanna Medeiros Ferreira Albuquerque relembra, em texto emocionante, como seu irmão a introduziu ao conhecimento e à cultura durante a juventude no Ceará.

No Ceará, após a extinção dos dinossauros e logo depois do golpe de 1964, uma adolescente apaixonada por escrever carregava uma caderneta para anotar palavras novas ouvidas em conversas de bar. Ela corria ao banheiro para registrar os termos, que depois procurava no dicionário de capa preta. Nas rodas de universitários, usava as palavras recém-aprendidas, sendo recebida com olhares incrédulos, mas acertando na maioria das vezes.
Com o tempo, a menina integrou-se ao grupo, participando de aulas práticas em praias, tertúlias e bailes, sempre sob o olhar discreto do irmão. Ele estabelecia horários e ameaçava ir embora se ela não fosse pontual, ensinando-lhe responsabilidade e autonomia. Também passou técnicas de sobrevivência, como verificar saídas de emergência e se esconder sob mesas em caso de brigas ou batidas policiais.
O irmão promoveu sua iniciação cultural ampla: leu Machado de Assis, Marx, Paulo Freire, Nelson Rodrigues e Jorge Amado; ouviu Elvis Presley, Beatles, Chico Buarque, Gilberto Gil, Bethânia e Gal; acompanhou festivais de música em preto e branco durante os anos de chumbo.
Hoje, o irmão não está mais presente fisicamente. A morte, democrática e imprevisível, deixou a certeza de que ele recebeu amor infinito. A autora reflete que, se tivesse tido celular e Google na juventude, nada teria sido como foi. Fechando os olhos, ainda volta ao tempo em que só havia o irmão, a caderneta e a vontade de saber o significado das palavras.



