Saúde bucal pode quadruplicar risco de perda da função renal; entenda a ligação
Estudos mostram que periodontite grave aumenta em até quatro vezes o risco de declínio da função renal, revelando uma relação bidirecional entre boca e rins.

A saúde da boca vai muito além da estética. Pesquisas científicas apontam que doenças gengivais, como a periodontite, podem elevar o risco de desenvolver doença renal crônica (DRC) em até 60%. Em casos graves, o perigo é ainda maior: um estudo publicado no Journal of Periodontology, que acompanhou centenas de pessoas por quase cinco anos, constatou que pacientes com periodontite avançada têm quatro vezes mais chances de sofrer declínio da função renal.
A relação entre boca e rins é de mão dupla. Segundo a nefrologista Marina Abritta Hanauer, diretora clínica da Fundação Pró-Rim, a DRC afeta a boca, e a doença bucal também prejudica os rins. Quando a gengiva está inflamada, bactérias e toxinas podem entrar na corrente sanguínea, provocando uma resposta inflamatória sistêmica que danifica os vasos renais e acelera a progressão da doença.
Por outro lado, pacientes renais frequentemente apresentam sintomas bucais como gosto metálico, halitose e boca seca, devido ao acúmulo de ureia na saliva, que é convertida em amônia pelas bactérias. Além disso, a saliva desses pacientes tende a ser mais alcalina e rica em fósforo, favorecendo o acúmulo rápido de tártaro, mesmo com escovação regular.
O atendimento odontológico de pacientes renais, especialmente os que fazem hemodiálise, exige cuidados especiais. O agendamento deve ser feito preferencialmente nos dias sem diálise, e é essencial uma avaliação prévia com exames como creatinina e coagulograma. Anti-inflamatórios comuns são nefrotóxicos e devem ser evitados, e antibióticos precisam ter doses ajustadas. Também é fundamental não medir a pressão no braço da fístula arteriovenosa, mesmo em consultas de rotina.
A boa notícia é que tratar a periodontite pode ajudar a conter a progressão da doença renal. Estudos indicam que o tratamento bucal reduz marcadores inflamatórios, o que pode estagnar a piora da função renal, embora não haja evidências de que melhore a taxa de filtração glomerular já comprometida. Como resume a nefrologista: "O cuidado com a gengiva pode estagnar a progressão da doença renal, mas não é isso que vai melhorar a função dos rins".



