Onde estão os gênios do Tocantins?
Uma reflexão sobre a necessidade de identificar e estimular talentos excepcionais entre os jovens tocantinenses, que podem estar escondidos nas escolas e comunidades do estado.

Uma pergunta incômoda, mas necessária, precisa ser feita ao Tocantins: onde estão os nossos gênios? Uma matéria publicada nesta semana chama atenção para um problema que pode ser muito maior do que imaginamos: milhões de jovens brasileiros podem apresentar altas habilidades, superdotação ou talentos excepcionais, mas uma parcela significativa deles sequer é identificada. A questão que fica para nós, tocantinenses, é ainda mais provocadora: quantos desses talentos estão escondidos nas nossas escolas, nos nossos municípios, nas comunidades indígenas, nos assentamentos, nas periferias e até mesmo nas pequenas cidades do interior? E, principalmente: estamos procurando por eles? Talvez o próximo grande cientista brasileiro, o engenheiro que vai revolucionar a agricultura tropical, o programador que criará uma tecnologia para o agronegócio, o pesquisador da biodiversidade amazônica ou o empreendedor que transformará o turismo do Tocantins esteja hoje sentado em uma carteira escolar em Araguacema, Gurupi, Araguaína, Porto Nacional, Miracema, Pedro Afonso, Caseara ou em qualquer um dos nossos 139 municípios. O problema é que talento, quando não é identificado, pode se perder.
O Tocantins tem um laboratório a céu aberto. Poucos estados brasileiros possuem uma combinação de características tão extraordinária quanto o Tocantins. Temos o Cerrado, o Jalapão, o Rio Araguaia, o Cantão, a Ilha do Bananal, uma das maiores áreas contínuas de floresta alagável do planeta, uma biodiversidade extraordinária, uma agricultura em expansão, potencial energético, posição geográfica estratégica, riquezas minerais, turismo, cultura indígena e uma população jovem. Tudo isso poderia funcionar como um enorme laboratório para uma nova geração de pesquisadores, empreendedores e inventores. Por que não estimular um jovem a desenvolver uma tecnologia para monitorar queimadas? Por que não transformar nossos rios em ambientes de pesquisa sobre água, pesca e biodiversidade? Por que não incentivar estudantes a criar soluções de inteligência artificial para o agronegócio? Por que não utilizar drones, sensores e imagens de satélite para melhorar a produtividade das nossas propriedades rurais? Por que não criar tecnologias para preservar o Araguaia e o Tocantins e, ao mesmo tempo, desenvolver o turismo sustentável? E por que não procurar, dentro das nossas escolas, quem já está pensando nessas soluções? O Tocantins não precisa necessariamente importar todas as grandes ideias. Talvez algumas delas estejam sendo produzidas aqui, por jovens que ainda não tiveram a oportunidade de mostrar do que são capazes.
Não basta ensinar. É preciso descobrir talentos. O Estado já possui iniciativas importantes nessa direção. O IFTO realiza a Jornada de Iniciação Científica e Extensão, justamente com o propósito de despertar vocações científicas e incentivar novos talentos entre estudantes. A VIVA CIÊNCIA, feira científica e tecnológica do Tocantins, reúne projetos de estudantes do ensino fundamental, médio e técnico, incluindo áreas como ciências agrárias, engenharia, saúde, tecnologia e ciências humanas. A Unitins também mantém programa de iniciação científica para estudantes do ensino médio. São caminhos importantes. Mas precisamos dar um passo além. Precisamos transformar essas iniciativas em uma política permanente de identificação, estímulo e retenção de talentos. Não apenas descobrir quem tira as melhores notas. Precisamos encontrar também aquele aluno curioso que desmonta aparelhos para descobrir como funcionam; aquele que passa horas programando; aquele que conhece profundamente os rios e lagos da região; aquele que tem uma memória extraordinária; aquele que cria soluções para problemas da propriedade dos pais; aquele que desenha máquinas; aquele que inventa histórias; aquele que observa a natureza de uma maneira diferente. Gênio não vem necessariamente com diploma. Às vezes vem com curiosidade.
E se criássemos um “Mapa dos Talentos do Tocantins”? Minha sugestão é simples. O Tocantins poderia criar um grande programa estadual para identificar talentos entre crianças e jovens. Um verdadeiro Mapa dos Talentos do Tocantins. Escolas públicas e privadas, universidades, institutos federais, empresas, entidades empresariais e organizações da sociedade poderiam participar. Cada município poderia apresentar seus jovens talentos. Depois, esses jovens poderiam receber acesso a laboratórios, bolsas, mentorias, universidades, empresas, tecnologia e intercâmbio. Imagine um estudante de uma pequena cidade sendo descoberto e tendo a chance de desenvolver seu potencial. Essa é uma proposta que pode transformar o futuro do estado, gerando inovação e desenvolvimento a partir de dentro.



