Falhas militares e atrasos burocráticos comprometeram resgate pós-terremotos na Venezuela
Ordens atrasadas, falta de equipamentos e confusão na cadeia de comando dificultaram a atuação das Forças Armadas venezuelanas após os terremotos que mataram cerca de 5 mil pessoas no mês passado.

Oito fontes com conhecimento direto da operação relataram à Reuters que a resposta militar aos terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 que atingiram a costa venezuelana em junho foi marcada por atrasos e desorganização. Os tremores deixaram aproximadamente 5 mil mortos segundo dados oficiais, mas especialistas do Serviço Geológico dos EUA estimam que o número final pode chegar a 10 mil.
No estado de La Guaira, onde ficam o principal aeroporto e um porto estratégico, centenas de prédios residenciais desabaram total ou parcialmente. Apesar de o governo afirmar ter mobilizado 4 mil funcionários imediatamente, testemunhas relataram que as forças de segurança quase não apareceram nas primeiras horas, e civis assumiram os resgates com ferramentas rudimentares.
Militares ouvidos pela reportagem disseram que não podiam deslocar suas unidades sem autorização expressa dos superiores, por medo de punições. A falta de um plano de defesa para desastres e a centralização excessiva das decisões paralisaram tropas que estavam prontas para agir, como a Brigada de Infantaria da Marinha, que nunca recebeu ordem de partida.
A crise econômica dos últimos anos também deixou as Forças Armadas sem equipamentos básicos. Unidades careciam de caminhões, picaretas, martelos e helicópteros com visão noturna. O próprio vice-ministro de gestão de crise chegou ao local sem rádios ou celulares funcionais.
A situação foi agravada pela sobreposição de autoridades: a presidente interina Delcy Rodríguez nomeou o comandante da Guarda Nacional, Juan Sulbarán Quintero, como chefe da resposta, mas um decreto paralelo deu poderes ao ministro do Interior, Diosdado Cabello. A indefinição gerou debates sobre qual força policial deveria atuar, atrasando ainda mais o socorro.
Equipes internacionais de resgate também perderam horas aguardando a definição de suas áreas de busca. A demora na liberação dos setores comprometeu a chance de salvar sobreviventes presos sob os escombros.



