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A atualidade de Karl Marx e o uso da fé como instrumento político

Em artigo publicado no portal Gazeta do Cerrado, o autor Cláudio Bento reflete sobre a relação entre religião e política a partir da célebre frase de Karl Marx que define a religião como 'ópio do povo', destacando que a análise do pensador alemão vai além de uma crítica simplista.

Por Redação Zero Um · 22 de setembro de 2026 às 21:00
A atualidade de Karl Marx e o uso da fé como instrumento político

O texto parte da obra 'Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel', na qual Marx afirma que a religião é 'o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração' e 'o ópio do povo'. Segundo o autor, a frase é frequentemente interpretada de forma reducionista, como se Marx tivesse dito que a religião é uma mentira inventada para enganar os pobres. No entanto, a reflexão é mais complexa e ganha atualidade justamente por isso.

Cláudio Bento observa que, ao falar da religião como 'suspiro da criatura oprimida', Marx reconhece o sofrimento real que pode estar por trás da experiência religiosa. A fé, nesse sentido, pode nascer da dor, da injustiça e da necessidade humana de encontrar sentido em uma realidade cruel. O autor ressalta que a palavra 'protesto' merece ser recuperada: a religião não é apenas expressão do sofrimento, mas também pode ser protesto contra ele.

Essa dimensão, segundo o artigo, é fundamental para compreender a relação entre religião e política nos dias atuais. Uma igreja pode acolher desempregados, ajudar famílias que passam fome, oferecer solidariedade e devolver esperança. Pode ser espaço de convivência, pertencimento e organização comunitária, inclusive estimulando a luta por justiça social. No entanto, a mesma instituição que acolhe também possui autoridade, e toda autoridade pode ser usada de maneiras distintas.

O autor levanta uma questão incômoda: como uma mesma instituição religiosa pode produzir solidariedade e, em certas circunstâncias, contribuir para legitimar relações de dominação? Ele pondera que não considera a religião naturalmente alienante, nem coloca todos os religiosos no mesmo lugar. A história mostra exemplos de comunidades religiosas ao lado dos pobres e trabalhadores. O problema surge quando a fé deixa de ser fonte de reflexão e passa a ser instrumento de controle.

Em período eleitoral, o altar pode se transformar em espaço de orientação política. O autor reconhece o direito de manifestação política de qualquer cidadão, inclusive líderes religiosos. Contudo, o problema aparece quando a opinião do líder é apresentada como verdade moral absoluta, como se votar em determinado partido fosse pecado ou escolha eleitoral fosse exigência divina. Nesses casos, há uso de autoridade religiosa para influenciar a consciência política de fiéis que depositam confiança nesse líder.

Cláudio Bento enfatiza que o voto pertence ao eleitor, não ao pastor, ao padre, ao bispo ou à instituição religiosa. A liberdade religiosa pressupõe liberdade de consciência, e uma pessoa pode ser profundamente religiosa e votar em qualquer candidato que considere adequado, inclusive fundamentando sua decisão em valores religiosos. O que merece reflexão é quando o eleitor deixa de avaliar os candidatos e passa a obedecer a uma orientação por temer desobedecer à autoridade religiosa. Nesse momento, a fé pode deixar de ser instrumento de libertação e se transformar em mecanismo de submissão. O autor conclui que a contradição entre legitimar ou enfrentar estruturas de poder torna a reflexão de Marx tão atual.

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